segunda-feira, 30 de maio de 2011

“Uma definição de felicidade”

“Uma definição de felicidade”
Todas as profissões têm sua visão do que é felicidade. Já li um economis-
ta defini-la como ganhar 20.000 dólares por ano, nem mais nem menos.
Para os monges budistas, felicidade é a busca do desapego. Autores de
livros de auto-ajuda definem felicidade como “estar bem consigo mesmo”,
“fazer o que se gosta” ou “ter coragem de sonhar alto”. O conceito de
felicidade que uso em meu dia-a-dia é difícil de explicar num artigo curto.
Eu o aprendi nos livros de Edward De Bono, Mihaly Csikszentmihalyi e de
outros nessa linha. A idéia é mais ou menos esta: todos nós temos desejos,
ambições e desafios que podem ser definidos como o mundo que você
quer abraçar. Ser rico, ser famoso, acabar com a miséria do mundo, casar-
se com um príncipe encantado, jogar futebol, e assim por diante. Até aí,
tudo bem. Imagine seus desejos como um balão inflável e que você está
dentro dele. Você sempre poderá ser mais ou menos ambicioso inflando ou
desinflando esse balão enorme que será seu mundo possível. É o mundo
que você ainda não sabe dominar. Agora imagine um outro balão inflável
dentro do seu mundo possível, e portanto bem menor, que representa a sua
base. É o mundo que você já domina, que maneja de olhos fechados,
graças aos seus conhecimentos, seu QI emocional e sua experiência. Felici-
dade nessa analogia seria a distância entre esses dois balões – o balão que
você pretende dominar e o que você domina. Se a distância entre os dois
for excessiva, você ficará frustrado, ansioso, mal-humorado e estressado. Se
a distância for mínima, você ficará tranqüilo, calmo, mas logo entediado e
sem espaço para crescer. Ser feliz é achar a distância certa entre o que se
tem e o que se quer ter.
O primeiro passo é definir corretamente o tamanho de seu sonho, o tama-
nho de sua ambição. Essa história de que tudo é possível se você somente
almejar alto é pura balela. Todos nós temos limitações e devemos sonhar de
acordo com elas. Querer ser presidente da República é um sonho que você
pode almejar quando virar governador ou senador, mas não no início de
carreira. O segundo passo é saber exatamente seu nível de competências,
sem arrogância nem enganos, tão comuns entre os intelectuais. O terceiro éencontrar o ponto de equilíbrio entre esses dois mundos. Saber administrar a
distância entre seus desejos e suas competências é o grande segredo da
vida. Escolha uma distância nem exagerada demais nem tacanha demais.
Se sua ambição não for acompanhada da devida competência, você se
frustrará. Esse é o erro de todos os jovens idealistas que querem mudar o
mundo com o que aprenderam no primeiro ano de faculdade. Curiosamen-
te, à medida que a distância entre seus sonhos e suas competências diminui
pelo seu próprio sucesso, surge frustração, e não felicidade.
Quantos gerentes depois de promovidos sofrem da famosa “fossa do
bem-sucedido”, tão conhecida por administradores de recursos humanos?
Quantos executivos bem-sucedidos são infelizes justamente porque “chega-
ram lá”? Pessoas pouco ambiciosas que procuram um emprego garantido
logo ficam entediadas, estacionadas, frustradas e não terão a prometida
felicidade. Essa definição explica por que a felicidade é tão efêmera. Ela é
um processo, e não um lugar onde finalmente se faz nada. Fazer nada no
paraíso não traz felicidade, apesar de ser o sonho de tantos brasileiros.
Felicidade é uma desconfortável tensão entre suas ambições e competênci-
as. Se você estiver estressado, tente primeiro esvaziar seu balão de ambi-
ções para algo mais realista. Delegue, abra mão de algumas atribuições,
diga não. Ou então encha mais seu balão de competências estudando,
observando e aprendendo com os outros, todos os dias. Os velhos acham
que é um fracasso abrir mão do espaço conquistado. Por isso, recusam
ceder poder ou atribuições e acabam infelizes. Reduzir suas ambições à
medida que você envelhece não é nenhuma derrota pessoal. Felicidade
não é um estado alcançável, um nirvana, mas uma dinâmica contínua. É
chegar lá, e não estar lá como muitos erroneamente pensam. Seja ambicio-
so dentro dos limites, estude e observe sempre, amplie seus sonhos quando
puder, reduza suas ambições quando as circunstâncias exigirem. Mantenha
sempre uma meta a alcançar em todas as etapas da vida e você será muito
feliz.
Stephen Kanitz é administrador por Harvard (www.kanitz.com.br)

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